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   Programa   

Sexta-feira, 19 de outubro, 21h30
Igreja de São João Evangelista (Colégio)
João Vaz, órgão
Pedro Rollin Rodrigues, tenor


 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 


O órgão na liturgia europeia

Johann Gottfried Walther (Alemanha, 1684-1748)
Partitas sobre Jesu, meine Freude

 

Manuel Rodrigues Coelho (Portugal, c.1555-1635)
Kirios de 1º tom / on the 1st Tone (5 versos)
(Flores de música, 1620)

 

Francisco Correa de Arauxo (Espanha, 1584-1654)
Glosas sobre el canto llano de la Inmaculada Concepción
(de Facultad organica, 1626)

 

Johann Sebastian Bach (Alemanha, 1685-1750)
Prelúdio de coral Wer nur den lieben Gott laesst walten, BWV 690
Prelúdio de coral Wer nur den lieben Gott laesst walten, BWV 691
Prelúdio de coral Wer nur den lieben Gott laesst walten, BWV 645

 

François Couperin (França, 1668-1733)
Tierce en taille
(Messe des Couvents, ca. 1690)

 

Daniel Magnus Gronau (Polónia / Alemanha, ca.1700-1747)
Variações sobre Ein feste Burg ist unser Gott
Var. prima à 2 claviature coppulate senza pedale
Var. seconda à 2 claviature con pedale
Var. terza à pedale solo

 

Giuseppe Antonio Paganelli (Itália, 1710-1783)
Aria II
Aria XXII
(XXX ariae pro organo et cembalo, 1756)

 

Louis Lefébure-Wély (França, 1817-1869)
Récit de hautbois
Marche
(Meditaciones religiosas, 1858)

 

 

Embora tenha origens numa época muito mais longínqua, foi a sua introdução na liturgia no século XIII que veio a proporcionar ao órgão o lugar que ocupa na história da música ocidental. A história do órgão e do seu repertório é, pois, indissociável da história da liturgia na Europa, tanto católica como protestante.

 

Na sequência do movimento reformista, Lutero e os seus seguidores criaram um extenso repertório de melodias, com letra em vernáculo e ritmo regular – os corais – que viriam a constituir o núcleo musical da liturgia protestante então emergente. Como forma de preparar a congregação para o canto daqueles corais, tornou-se habitual executar no órgão uma introdução puramente instrumental. Dessas introduções nasceu o prelúdio de coral, que frequentemente citava na íntegra a melodia litúrgica original, envolvendo-a numa teia contrapontística enriquecida pela variedade tímbrica que o instrumento permitia. Ao longo das variações sobre o coral Jesu, meine Freude de Johann Gottfried Walther, a melodia litúrgica surge ora na voz superior (por vezes numa versão ornamentada), ora numa voz intermédia, ora no baixo. No contexto de uma assembleia luterana, esta citação da melodia era facilmente reconhecível, pelo que os prelúdios de coral assumiam um valor litúrgico praticamente idêntico ao do coral cantado.

 

Nos países católicos, o cantochão permaneceu como a linguagem musical da Igreja e inspirou, direta ou indiretamente, a composição de grande número de obras para órgão. Os versos de Kyrie de Manuel Rodrigues Coelho (incluídos nas suas Flores de Música impressas em Lisboa em 1620) tinham o propósito de serem executados em alternância com os versos de cantochão cantados. Da mesma forma, na Messe pour les Couvents de François Couperin (publicada em Paris cerca de setenta anos mais tarde), grande parte das peças é destinada à alternância com o cantochão. Tanto os versos de Kyrie de Coelho, como as peças de Couperin, não têm qualquer relação temática com o cantochão, mantendo apenas a mesma tonalidade. Pelo contrário, as Glosas sobre el canto llano de la Inmaculada Concepción do compositor sevilhano Francisco Correa de Arauxo (incluídas na sua Facultad organica impressa em 1626) são variações sobre o hino Todo el mundo en general (uma melodia hispânica dedicada a Nossa Senhora), que utilizam ornamentações cada vez mais rápidas.

 

Johann Sebastian Bach escreveu ao longo da sua vida centenas de prelúdios de coral, alguns dos quais constituem, pela sua complexidade e profundidade, exemplos máximos do género. Muitos dos prelúdios de coral de Bach foram agrupados pelo compositor em coletâneas (Orgelbüchlein, Clavierübung III, ou os chamados «Corais de Leipzig»), que seguem a ordem do ano litúrgico. Outras foram transmitidas individualmente sem fazer parte de nenhuma coleção. As duas primeiras elaborações sobre o coral Wer nur den lieben Gott lässt walten incluídas neste programa (BWV 690 e 691) incluem-se nesta última categoria e são versões manualiter a três vozes, com o cantus firmus na voz superior. Na segunda versão (a dois teclados) a melodia surge numa versão muito ornamentada com uma sonoridade destacada. A terceira versão (BWV 645) faz parte do Orgelbüchlein e apresenta uma textura muito mais densa, a quatro vozes com pedaleira, também com o cantus firmus na voz mais aguda.

 

A diversidade de tratamento de uma melodia litúrgica nos prelúdios de coral pode ser também apreciada nas três variações sobre o coral Ein feste Burg ist unser Gott do compositor polaco Daniel Magnus Gronau. A primeira variação apresenta a melodia do coral na voz superior numa versão manualiter a três vozes. A segunda variação, a dois teclados e pedaleira, sendo o coral confiado à voz intermédia. A terceira variação é um surpreendente solo de pedaleira no qual a melodia litúrgica se reconhece nas notas mais agudas.

 

A crescente popularidade na ópera italiana ao longo do século XVIII levou a que, sobretudo nos países católicos do sul da Europa, a música sacra fosse influenciada por aquele estilo. A escrita orquestral e as melodias operáticas passaram a fazer parte da música de igreja (incluindo a música de órgão), dando origem a uma certa permeabilidade entre o sacro e o profano que perdurou, nos países latinos, até ao início do século XX. Um exemplo desta ambivalência musical sãos as XXX Arie pro organo et cembalo do napolitano Giuseppe Antonio Paganelli, destinadas pelo compositor tanto ao contexto litúrgico como à execução em espaços públicos e privados.

 

Se a música da maioria dos organistas latinos do início de oitocentos era influenciada pela ópera italiana, muitas improvisações de Louis-James-Alfred Lefébure-Wély, um dos mais famosos organistas franceses da primeira metade do século XIX, pareciam refletir o ambiente da opereta que dominava o gosto parisiense da época. O Solo de hautbois ou de trompette harmonique e a Marche pouvant servir pendant une procession ou une sortie fazem parte das Meditaciones religiosas, uma coletânea publicada em 1858 e dedicada à rainha Isabel II de Espanha. A Marche é um bom exemplo das intervenções de Lefébure-Wély no final das cerimónias litúrgicas nas igrejas da Madeleine e de Saint Sulpice, que lhe granjearam tão grande popularidade.

 

João Vaz

  Participantes  

Sexta-feira, 19 de outubro, 21h30
Igreja de São João Evangelista (Colégio)
João Vaz, órgão
Pedro Rollin Rodrigues, tenor


João Vaz


Pedro Rollin Rodrigues

João Vaz

 

Natural de Lisboa, diplomou-se em Órgão pela Escola Superior de Música da mesma cidade, sob a orientação de Antoine Sibertin-Blanc, e pelo Real Conservatório Superior de Música de Saragoça, onde estudou com José Luis González Uriol, como bolseiro da Fundação Calouste Gulbenkian. É também doutorado em Música e Musicologia pela Universidade de Évora. Tem mantido uma intensa atividade a nível internacional, quer como concertista, quer como docente, em cursos de aperfeiçoamento organístico. Efetuou mais de uma dezena de gravações discográficas a solo, muitas delas em instrumentos históricos portugueses, e leciona atualmente Órgão na Escola Superior de Música de Lisboa e na Escola das Artes da Universidade Católica no Porto. É titular do órgão da Igreja de São Vicente de Fora, em Lisboa e diretor artístico do Festival Internacional de Órgão de Lisboa e do Festival de Órgão da Madeira. Foi consultor permanente para o restauro dos seis órgãos da Basílica do Palácio Nacional de Mafra e é consultor para o restauro do órgão do Mosteiro do Lorvão.



Pedro Rollin Rodrigues

 

Foi aluno do Instituto Gregoriano de Lisboa. Estudou Canto com Ana Leonor Pereira, Elsa Cortez e Armando Possante. É licenciado em Direção Coral e Formação Musical pela Escola Superior de Música de Lisboa, onde foi aluno de Vasco Pearce Azevedo e Paulo Lourenço (Direção Coral) e de Maria Helena Pires de Matos (Direção e Modalidade Gregorianas). Frequenta atualmente a Licenciatura em Direção de Orquestra, na classe de Jean-Marc Burfin, na Academia Nacional Superior de Orquestra - Orquestra Metropolitana de Lisboa. Frequentou cursos de Direção Coral com os maestros Stephen Cocker, Peter Phillips, Owen Rees, entre outros. É coralista do Coro Gulbenkian, do Ensemble Lusiovoce e do Coro Gregoriano de Lisboa. É membro fundador e diretor artístico do Ensemble Studio Contrapuncti. Integrou o corpo docente do Conservatório Metropolitano de Música de Lisboa. Desde 2010, tomou a cargo a direção musical dos Pequenos Cantores da Basílica da Estrela.

 

   Notas ao Orgão   

Sexta-feira, 19 de outubro, 21h30
Igreja de São João Evangelista (Colégio)
João Vaz, órgão
Pedro Rollin Rodrigues, tenor


 

 

 

 


 

 

 

 

 

 

 

 

Igreja de São João Evangelista (Colégio), Funchal

 

Este instrumento, com os seus 1586 tubos sonoros, integra-se num espaço sagrado de características bem particulares. Tratando-se de uma igreja de arquitetura típica dos colégios jesuítas, com uma nave de admirável amplitude e com acústica bastante amena, o órgão tinha de ser concebido, especialmente no que diz respeito às medidas dos tubos, com cuidado muito especial e singular. Assim, toda a tubaria deste instrumento, talhada em medidas largas, ecoa com intensa profundidade, e cada registo emite uma sonoridade com personalidade própria, fazendo parte de um conjunto harmónico mais baseado em sons fundamentais e menos em timbres resultantes dos harmónicos. Entendeu-se que seria indispensável doar este instrumento de uma certa “latinidade” sonora capaz de favorecer a execução de música antiga das escolas italiana, espanhola e portuguesa dos séculos XVII e XVIII.  

 

Outro aspeto tomado em conta foi a necessidade de complementar o panorama organístico atual e local: o novo grande órgão presta-se, de uma forma ideal, para a realização de obras de épocas e de exigências técnico-artísticas para as quais nenhum dos 24 instrumentos históricos da Madeira oferece as condições adequadas, valorizando, para além disso, o conjunto do património organístico da Ilha da Madeira através da sua própria existência neste particular espaço sagrado, bem como por meio da sua convivência com os espécimes históricos. Na própria decisão de o colocar na Igreja do Colégio foram tomados em conta  não apenas o espaço acústico, estético e litúrgico, mas também o facto de nele existir um importante órgão histórico que faz parte do rol dos instrumentos atualmente em via de serem restaurados.

 

I Manual - Órgão Principal (C-g’’’)

Flautado aberto de 12 palmos (8’)
Flautado tapado de 12 palmos (8’)
Oitava real (4’)                      
Tapado de 6 palmos (4’)       
Quinzena (2’)
Dezanovena e 22ª                
Mistura III                            
Corneta IV                            
Trompa de batalha* (mão esquerda)           
Clarim* (mão direita)
Fagote* (mão esquerda)
Clarineta* (mão direita)

 

II Manual - Órgão Positivo (C-g’’’)

Flautado aberto de 12 palmos (8’)
Tapado de 12 palmos (8’)
Flautado aberto de 6 palmos (4’)
Dozena (2 2/3’)
Quinzena (2’)
Dezassetena (1 3/5’)
Dezanovena (1 1/3)
Címbala III
Trompa real (8’)

 

Pedal (C-f’)                                                    

Tapado de 24 palmos (16’)  
Bordão de 12 palmos (8’)                 
Flautado de 6 palmos (4’)                 
Contrafagote de 24 palmos (16’)
Trompa de 12 palmos (8’)

 

Acoplamentos / Couplers

II/I
I/Pedal
II/Pedal

* palhetas horizontais / horizontal reeds